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Antes de definir o caminho é preciso saber quem vai seguir na jornada com a marca

Do release ao reels, adaptar formatos de comunicação exige compreender como cada público consome, interpreta e atribui valor à mesma informação



Durante a Copa do Mundo, milhões de pessoas acompanham o mesmo fato. Há quem assista aos 90 minutos pela televisão, veja apenas os melhores momentos no celular, acompanhe comentários em tempo real nas redes sociais, procure análise tática após a partida ou só queira saber o placar. O jogo é o mesmo, mas a experiência muda conforme interesse, tempo disponível, repertório e canal escolhido por cada pessoa.

A comunicação corporativa funciona de maneira semelhante. A mesma informação pode ganhar forma de release, artigo, vídeo curto, newsletter, post de LinkedIn, comunicado interno, entrevista ou apresentação executiva. A questão central, porém, não é transformar automaticamente conteúdo em vários formatos. O ponto de partida deve ser outro. Qual público precisa receber a mensagem? Como ela deve ser compreendida? E, principalmente, o que ele realmente quer saber?

Os dados mostram por que essa discussão se tornou estratégica. O Reuters Institute, uma das principais referências mundiais em estudos sobre consumo de notícias, aponta que o acesso à informação segue migrando para redes sociais e plataformas de vídeo, especialmente entre públicos mais jovens, enquanto veículos tradicionais enfrentam queda de engajamento em diferentes mercados.

No Brasil, o DataReportal, plataforma global que reúne relatórios sobre internet, redes sociais, dispositivos móveis e comércio eletrônico, estima que mais de 140 milhões de brasileiros possam ser alcançados por plataformas como YouTube e Instagram, enquanto TikTok reúne mais de 90 milhões de usuários adultos e LinkedIn ultrapassa 80 milhões de membros.

Comportamento do público – Esses números não indicam que toda empresa precisa estar em todos os canais. Revelam que os públicos circulam por ambientes diferentes e esperam experiências distintas em cada um deles:

  • O jovem empreendedor pode descobrir uma tendência em vídeo curto e depois buscar aprofundamento em podcast.

  •  O gestor intermediário talvez prefira artigo no LinkedIn ou newsletter objetiva.

  •  Fundadores de empresas tradicionais tendem a valorizar entrevista em veículo especializado, encontro presencial ou relatório executivo bem estruturado.


Nenhum comportamento é melhor ou pior. São formas distintas de consumir informação. Por isso, adaptar comunicação não significa apenas encurtar texto, trocar título ou transformar parágrafo em legenda. Significa compreender o valor que o conteúdo terá para cada público da marca.
Imagine uma empresa que anuncia tecnologia capaz de reduzir custos operacionais e ampliar eficiência:

  • Para investidores, a informação pode sinalizar competitividade e margem.

  • Para colaboradores, pode representar modernização da rotina e novas competências.

  • Para a imprensa, talvez seja pauta sobre inovação setorial.

  • Para consumidores, especialmente em um país sensível a preço, a pergunta pode ser mais direta: essa eficiência melhora o produto, o atendimento ou ajuda a manter preço mais competitivo?


A informação original não muda. O que muda é a pergunta que cada público faz diante dela. Comunicação estratégica consiste em responder a essas perguntas com clareza, sem perder a essência da mensagem.
Comunicação omnichannel – A escolha do canal vem depois da compreensão do público:

  • Release continua relevante quando há notícia, contexto e interesse jornalístico.

  • Reels pode ser eficiente para traduzir ideia de forma rápida e visual.

  •  Artigo permite desenvolver raciocínio e autoridade.

  •  Newsletter interna aproxima conteúdo dos colaboradores.

  •  Vídeo com porta-voz humaniza a informação.

  •  Podcast aprofunda temas para quem busca repertório.


O erro está em tratar canais como receita pronta. Nem toda pauta merece release. Nem toda mensagem cabe em vídeo curto. Nem todo dado precisa virar carrossel. A decisão depende de objetivo, público e grau de complexidade da informação.

Pesquisas sobre experiência do cliente reforçam essa lógica. A Salesforce, plataforma de gestão de relacionamento com clientes, ouviu 4.500 líderes de marketing e identificou que 83% reconhecem a transição para mensagens personalizadas e de mão dupla, mas apenas um em cada quatro está satisfeito com o uso de dados para sustentar essas interações.

A McKinsey & Company, consultoria global de gestão estratégica, também mostra a complexidade do ambiente B2B. Compradores utilizam, em média, dez formas de interação ao longo da jornada, entre canais presenciais, remotos e digitais. Ou seja, o público não se relaciona com marcas em linha reta. Alterna canais, compara fontes, busca validação e espera coerência.

Na experiência do Grupo Printer em projetos de comunicação corporativa, relacionamento com a imprensa, posicionamento institucional e comunicação interna, um dos desafios mais recorrentes está justamente em equilibrar consistência e adaptação. Organizações possuem públicos distintos, mas todas precisam preservar identidade reconhecível, independentemente do canal utilizado.

Consistência da marca – Adaptar formatos exige preservar identidade. Uma empresa pode ser objetiva na imprensa, didática nas redes sociais, analítica no LinkedIn e próxima na comunicação interna. O tom muda, mas a personalidade da marca precisa permanecer reconhecível. Quando cada canal fala como se pertencesse a uma empresa diferente, a comunicação perde força e a reputação fica vulnerável.

Um bom exemplo público vem da NASA. Em 2025, a agência anunciou revisão de sua presença em redes sociais para reduzir perfis, organizar melhor a comunicação e construir voz digital mais unificada em ambiente saturado de informações. A decisão mostra que presença em muitos canais só faz sentido quando há clareza de estratégia, governança e identidade.

Nesse ponto, o trabalho profissional de comunicação torna-se decisivo. Como já discutido em outros artigos, tecnologia ajuda a monitorar tendências, analisar desempenho, mapear canais e adaptar conteúdos com mais rapidez. Mas nenhuma ferramenta substitui leitura estratégica sobre público, contexto, reputação e risco.

Agência ou equipe de comunicação não existe apenas para produzir peças. Existe para decidir o que deve ser comunicado, para quem, com qual abordagem, em que momento e por qual canal. Também cabe aos profissionais da área identificar quando a mensagem precisa de aprofundamento, exige porta-voz, deve começar internamente ou pode ganhar escala externa.

No fim, a passagem do release ao reels não representa apenas mudança de formato. Representa mudança de lógica. A empresa deixa de perguntar apenas “onde vamos publicar?” e passa a perguntar “como essa mensagem será compreendida?”.

Antes do formato, vem o público. Antes da plataforma, vem o contexto. E antes de qualquer publicação, vem a responsabilidade de construir comunicação capaz de gerar compreensão, confiança e relacionamento. Porque canais evoluem. Comportamentos mudam. Mas marcas fortes continuam sendo aquelas que conseguem fazer sentido para as pessoas.

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